BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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Sonhando num mundo estranho



Edukators - Os Educadores
(Die Fetten Jahre sind vorbei/ 2004)
Direção: Hans Weingartner
Com: Daniel Brühl (Jan), Julia Jentsch (Jule), Stipe Erceg (Peter), Burghart Klaußner (Hardenberg), etc


Dizem que hoje há mais liberdade no mundo que em outros tempos. A quantidade de conflitos sangrentos também é menor e certos conceitos, como a consciência ecológica e a igualdade de direitos entre os sexos, são "conquistas" relativamente novas na escala do tempo. Então por quê há tanta gente descontente no mundo? Mais especificamente: por quê na Alemanha, que viu-se livre de um muro horrendo em 1989 e onde o sistema de "welfare state" aparentemente funciona, existe insatisfação de certa parcela da juventude?

Respostas não faltam. Talvez porque qualquer verdade possa ser contada com um monte de mentiras, porque rebelar-se faz parte de "ser jovem" e porque, independentemente do mundo ao nosso redor, existem certos dilemas que são intrínsecos a essa coisa complicada chamada ser humano.

O filme de Hans Weigartner lança um olhar sincero sobre essas e outras questões ao mostrar o idealismo de três jovens alemães e todos os seus paradoxos. "Educadores" é o nome de um grupo ativista que objetiva dar uma lição na classe abastada, abrindo-lhe os olhos para o tipo de sistema que seu estilo de vida está bancando. O método do grupo consiste em invadir mansões, empilhar móveis caros e obras de arte, deixando blhetes do tipo: "Cuidado: Seus Dias de Fartura Acabaram".

Mas os "Educadores" são apenas dois. Os amigos de infância Jan e Peter, sobre os quais pouco nos é revelado. Não se sabe se eles trabalham e de onde saiu toda aquela insatisfação com o status quo. O que parece inicialmente um problema na construção dos personagens, acaba sendo resolvido pelas reviravoltas que o roteiro nos reserva.

A terceira integrante da turma é Jule, uma garota. Jule namora com Peter e tem certa cisma com seu inseparável amigo e colega de quarto Jan (interpretado pelo carismático Daniel Brühl, de "Adeus, Lênin!"). Quando Peter viaja para Barcelona, as relações entre ela e Jan se estreitam. Jule descobre, por exemplo, que aquele rapaz e seu namorado são os "Educadores", de quem ela nunca houvira falar, mas cujo idealismo e espírito de aventura lhe fascinam imediatamente. Um tipo de cumplicidade/química se estabelece entre eles. Durante papo existencial num viaduto durante a noite (cena bem charmosa, aliás), o rapaz resolve mostrar a ela como agem os "Educadores". A invasão não sai como se esperava e história dá uma guinada surpreendente. Revelar o que acontece depois seria estragar a tensão que Weingartner elaborou tão bem, especialmente na seqüência da malfadada invasão, que gera no espectador sensação de desconforto.

Jan, Jule e Peter passam por verdadeira provação na tentativa de resolver a enrascada em que se meteram. Seu idealismo é posto à prova e contestado de forma tão natural e verdadeira, que torna sua digestão ainda mais complicada. Os dois amigos e a garota mantêm certa inocência em sua maneira de ver os problemas do mundo, algo que, por outro lado, confere a eles a honestidade que falta aos mais velhos. A capacidade de sonhar sonhos impossíveis num mundo cada vez mais pragmático, imediatista e em que cada um cuida do próprio nariz, é inspiradora. Mas os "Educadores" também são expostos a incoerências no seu próprio jeito de se relacionar: o sentimento de posse, o apego a valores convencionais, além de um fio de dúvida que paira no ar sobre a validade do que eles mesmos estão fazendo (algo que Jule escancara em momento de profunda franqueza). Há elementos ali que indicam perda da inocência e esboçam um rito de passagem, fato que Weingartner respeita, mas que tenta, ele próprio como um sonhador, subverter.

É tudo muito bonito, mas também desalentador. O mundo não parece permitir mais que se sonhe desse jeito. A esquerda chegou ao poder e cada vez age mais como a direita. Essa, por sua vez, é cada vez mais reaça e conservadora. Os ricos estão mais ricos e os pobres, mais pobres. O resto da juventude que não se rebela também não tem ideais. A vida força todo mundo, mais do que nunca, a cuidar da própria carcaça, talvez num dos períodos mais individualistas da história humana. Grande parte dos movimentos libertários foi para o vinagre, cooptada pelo sistemão e transformada em bens de commodities. É uma grande sinuca de bico que parece materializada em certos diálogos e situações de "Edukators", filme que deixa, apesar de todo esse cenário, uma pontinha de sonho para quem quer sonhar.

O fato de a produção ser alemã justifica um último parágrafo. Em "Adeus, Lênin!", ótimo filme de Wolfgang Becker, uma outra Alemanha comemorava a derrocada do comunismo e a queda do muro. Personagem vivido por Daniel Brühl fazia de tudo para esconder de sua mãe doente que a URSS havia implodido, enquanto ele próprio se esbaldava com a cultura do Ocidente e as maravilhas do capitalismo.
O idealista Jan, de "Edukators", interpretado pelo mesmo Brúhl, contesta justamente o deslumbre com o capital tão festejado em "Adeus, Lênin!"...

Talvez os dois filmes, juntos, formem um painel mais abrangente de toda essa confusão existencial, política e filosófica. Na pior das hipóteses, rendem um bom programa duplo.


Eles querem implodir o mundo dos ricos.

****

A quem interessar possa: o Caixa Preta bateu o recorde de inatividade em seu ano e meio de existência. Foram 3 meses sem qualquer novo post, o que, para minha surpresa, resultou em puxões de orelha de meia-dúzia de leitores. Serviu para descobrir que esse blog tem visitantes. Inclusive alguns amigos do escriba. O sumiço não se repetirá.

 Escrito por Mr Eddy às 02h13
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